TeRcEiRo AnDaR
Terceiro Andar.......


Quarta-feira, Agosto 06, 2008  

Minha primeira noite sem dormir teve nome: Xuxa.
Eu, com meus 9 anos, sempre desejei ter um cachorro. Não me contentava brincar com aqueles na rua, que os amo até hoje, mas queria ter uma pra abraçar toda hora, pra subir na minha cama sem minha mãe perceber, e no outro dia os pêlos me denunciarem para as conseqüentes broncas, que hoje rimos tanto ao lembrarmos.
Era um dia de Março, foge-me a data exata, mas creio que era dia 10, aniversário de mamãe.
Aquela coisinha orelhuda marrom chegou com cara de assustada, pois em poucas horas estava com o conforto de sua mãe, mamando, e de repente se depara com uma família: uma avó, uma mãe e três irmãos.
A primeira noite, que passaste no banheiro, forrado com jornal, seu chorinho que lembro tão nítido como uma canção marcante.
Eu não dormi pra ficar brincando com você. Eu já tinha tentando por outras vezes não dormir pra ficar fazendo qualquer coisa, mas foi você que me fez passar a primeira noite em claro. Eu estava alucinado. Minha primeira cachorrinha. Brincamos a madrugada toda, até que deu a hora de ir pra escola.
Lembro de quando você com alguns meses foi ensinada por mim a levar a chave no portão, pra quem chegava. E lembro que você levou a chave pros entregadores das Casas Bahia, “sua avó” brigou contigo, e você nunca mais levou nada pra ninguém. Fisicamente falando.
Lembro quando você ficou bêbada, que todo mundo ficou pasmo que a cerveja no copo “evaporava”, que não vencia abrir mais garrafas, até que vimos uma coisinha marrom andando descompassada, latindo pra sombra... E você era o fator determinante para a mudança de estado da cerveja; cada uma que você aprontou.
Das vezes que você me via e se escondia, com medo de ir ao veterinário ou de tomar banho.
Dos seus lanchinhos enterrados na areia, do seu fuço cheio de terra, de quando você misteriosamente saiu do quintal e ficou chorando às 4 da manhã, pedindo com choramingados que abríssemos o portão. Alias, por mais um pouco, você saia voando, de tanto que abanou o rabo quando nos viu chegar ao portão...
De quando você ficou grávida, de sua gravidez, que você mal saia do lugar.
Do dia que seus filhotes nasceram, e você mostrava os dentes pra quem chegava perto, e, às vezes, rosnava abanando o rabo de felicidade, dizendo que gostava de todos, mas não cheguem perto de meus filhotes... todo seu instinto materno.... extinto por uma Danone de morango... (imagino você pensando, “amo vocês, meus filhotes, mas aquilo ali é um Danone de morango, já volto...”).
Você, minha velha companheira, que cuidou da vó quando Dona Maria fez suas últimas pamonhas aqui em casa. Quando chegávamos de algum lugar e você estava com seu chapeuzinho de folha de milho, feliz da vida, parecendo uma criança feliz na casa da vó, em seu posto oficial, debaixo da cadeira da Vó Maria.
Quando você buscava Dona Maria, como quem falava, “o vó, vai comprar frutas e verduras, o seu paquera chegou”...
Lembro quando você ia latir pra alguém e era surpreendida pela Zô, na sua orelha, literalmente, com mordidas que deixariam muitos Mike’s Tyson’s invejosos...
Quantas vezes você com esse jeito meigo, por vezes rabugento, é verdade, desafiou a morte, venceu verminoses mortais, problemas de colunas.... só caiu perante aquele tumor que há tempos descobrimos.... e que a derrota, se ela existiu, foi vendida de forma tão honrada por ti.
Desculpa minha morena não estar contigo naquela hora, eu não agüentaria te ver dormir pra sempre.
Sei que agora você está sendo mordida na orelha pela Zô, com seu chapeuzinho de milho feito especialmente pela Vó Maria, que não há dor ai, mas aqui dói muito minha princesa... muito....
Um dia esquecerei quem sou, quem fui, o que fiz, mas não esquecerei de você. Seja minha orelhudinha marrom, ou minha cadelinha branca idosa, rabugenta; saudades eternas minha morena, saudades....
Um dia terei cachorros, mas você é, foi e será a minha primeira, a minha especial, tão quanto a Zô.
Saudades.....

posted by FRANCISCO LEITÃO | 6:13 PM
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